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Mulher que transou com morador de rua é exposta o tempo todo e ninguém liga.


26/03/2022 às 10h20

Uma mulher casada fez sexo com um homem em situação de rua dentro do carro. O marido chegou, viu tudo e agrediu o homem. Essa história era para ser só uma fofoca de cidade do interior e um caso para polícia, já que houve agressão. Mas viralizou. Há três semanas o Brasil discute o caso, que aconteceu em Planaltina, no Distrito Federal. E, cada vez que se fala no assunto, a mulher envolvida é mais exposta. O assunto poderia ter sido resolvido pelo casal. Mas não, logo o marido apareceu dando detalhes do ocorrido. Segundo ele, a mulher teria tido um episódio psiquiátrico.

Não temos nada com isso. Mas piora. Agora, o homem em situação de rua virou uma subcelebridade. Para alguns, ele é uma espécie de "mito", já que pegou "a gostosona". E o que ele tem feito em cada entrevista que dá? (sim, ele está sendo requisitado) Conta supostos detalhes do sexo, com direito a muitos comentários sobre as "habilidades" da mulher. E eles são publicados por aí sem dó, como se isso não fosse uma exposição absurda de uma mulher. Um vídeo feito por uma câmera de segurança do momento também é reproduzido sem parar. O que é isso? Esqueceram que existe uma mulher na história que não autorizou nada disso? Segundo sua advogada, a mulher em questão estaria internada em uma clínica psiquiátrica. Imagina como deve estar sendo horrível para ela ler essas coisas. Imagina as piadinhas que ela vai ouvir? Aliás, já estão circulando meme de mau gosto no Instagram e em grupos do WhatsApp. É uma falta de respeito enorme com uma mulher (e, logo, com todas nós). Não pode ser que achem normal falar dela por aí como estão fazendo. Os termos que são usados e as frases, obviamente, não serão reproduzidas aqui. Não dá para compactuar com isso. 

Infelizmente, esses detalhes vão ficar na internet para sempre. Ou seja, o homem em situação de rua ganha fama e fãs. E uma mulher pode ter a vida destruída. Aporofobia Falando sobre fama. Desde que esse homem passou a dar entrevista, muitas pessoas estão chocadas com o fato dele falar bem, ter ideias e carisma. Agem como se uma pessoa, por estar morando na rua, não fosse gente. O sujeito seria uma grande exceção. Isso em um país onde mais de 200 mil pessoas moram na rua. E, com a crise, o número só aumenta. O padre Júlio Lancellotti, que trabalha com populações de rua em São Paulo, costuma dizer que existe no Brasil um horror aos pobres. Ele usa o termo "aporofobia", que significa o preconceito contra os menos favorecidos e em situação de vulnerabilidade, como a população de rua. Existem muitos preconceitos nessa história que, definitivamente, não deve ser tratada como "fofoca".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Nina Lemos

https://www.uol.com.br/universa/colunas/nina-lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa


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