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Você sabe para que serve o divã na psicanálise?


17/03/2022 às 13h28

Símbolo da psicanálise, o divã é uma peça de mobiliário frequentemente usada em consultórios por profissionais que trabalham com essa terapia. O paciente deitado no divã e o analista sentado ao seu lado ou atrás, escutando-o, é a imagem clássica das sessões de psicanálise, embora o uso do móvel não se aplique a todos os casos.

Antes de responder ao título desta matéria, vamos primeiramente entender qual é a origem do divã na psicanálise. De acordo com Peter Gay, autor da biografia "Freud, Uma Vida Para Nosso Tempo", a peça de mobília foi um presente de uma paciente ao médico neurologista Sigmund Freud, em 1890, como gratidão pelos benefícios do seu tratamento.

O interessante nessa história é que embora o divã seja quase que considerado um objeto de fetiche da psicanálise, seu uso se deu num período anterior a ela. Isso porque na época em que Freud ganhou o presente, ele ainda não tinha criado a psicanálise como teoria e método de tratamento dos sintomas neuróticos, ele utilizava outras técnicas.

"O uso do divã remonta ao período do método catártico, por volta dos anos 1890 e 1895, no qual Freud e o médico Josef Breuer se utilizavam da hipnose para provocar uma catarse (libertação) dos afetos represados pelo evento traumático, que supostamente seria o causador dos sintomas neuróticos", diz Thais Klein, mestre e doutora em teoria psicanalítica pelo Programa de Pós-graduação em Teoria Psicanalítica do Instituto de Psicologia da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e membro do Núcleo de Estudos em Psicanálise e Clínica da Contemporaneidade da UFRJ. O divã, então, tinha como finalidade o relaxamento do paciente de modo que se alcançasse o estado hipnótico.

Em meados do final do século XIX, Freud abandona o método da catarse e a hipnose e institui a psicanálise a partir de duas premissas básicas. A primeira delas é a associação livre, onde o paciente pode e deve falar sobre o que quiser e da forma que quiser. A segunda é a escuta flutuante, onde o analista não direciona a fala do paciente e se ocupa prioritariamente da escuta.

Com a criação do método psicanalítico, Freud mantem o uso do divã como recurso técnico para diminuir a censura psíquica através do relaxamento e do descanso que a posição deitada provoca em todos os humanos.

"A fala que surge quando o paciente está deitado no divã, sem que ele veja a reação do analista, visa facilitar a abertura do inconsciente, ou seja, sua manifestação. Tudo que é inconsciente é motivo de resistência consciente, e o uso do divã contribui na superação desse tipo de dificuldade".

Laéria Fontenele explica que, potencialmente, todo indivíduo se defende do seu inconsciente, pois nele existe a expressão de desejos, cuja proibição e interdição são a condição da lei simbólica e da entrada do homem na cultura. Tais desejos são conflituosos e fontes de sofrimento e angústia quando se manifestam conscientemente. "O uso do divã favorece que o paciente fale livremente o que lhe vem à mente, procurando não censurar os conteúdos que nela surgem".

Gustavo Florêncio Fernandes, psicanalista, membro do TRIEP-Jundiaí (Trabalhos de Investigação e Estudos em Psicanálise) e associado do Corpo Freudiano Escola de Psicanálise - Núcleo São Paulo, também diz que o divã tem como objetivo produzir um fluxo de fala por parte do paciente que não sofra a interferência de reações imaginárias a partir de expressões do analista. Ele dá um exemplo: "O paciente pode pensar 'por que será que ele desviou o olhar quando falei aquilo?' ou 'meu analista parece gostar quando falo determinados assuntos' ou 'por vezes seu olhar parecia me recriminar'. A utilização do divã busca que o fluxo de associações seja o mais livre possível da interferência do olhar, priorizando a fala e a escuta", diz.

Ainda segundo ele, Freud observa que estando fora do ângulo de visão do paciente quando este está no divã, o terapeuta teria algum alívio frente ao cansaço de passar muitas horas face a face durante seus atendimentos.

Todo paciente que faz psicanálise vai ou precisa ir para o divã?

De acordo com Klein, da UFRJ, apesar de algumas vertentes psicanalíticas sustentarem que uma análise propriamente dita se inicia apenas no divã, ela afirma que a passagem para o divã pode ou não acontecer.

"Não há uma regra sobre a passagem para o divã, muito embora seja comum escutar que os psicanalistas podem encaminhar o paciente para o divã quando este começa a associar livremente e estabelece um tipo de relação específica com o analista que chamamos de transferência. Mas é preciso se atentar para cada caso", alerta.

Geralmente, existem as etapas do processo analítico nas quais o paciente será avaliado se tem ou não condições de entrar nesse processo. As entrevistas iniciais entre psicanalista e paciente costumam ocorrer frente a frente e a ida para o divã será pensada no decorrer do tratamento, podendo o indivíduo sinalizar seu desejo de ir ou o próprio analista fazer o convite.

Quais assuntos a pessoa pode falar no divã?

Como a regra fundamental da psicanálise é a associação livre, o paciente pode falar o que quiser. "Algo que a pessoa considera estranho num sonho, uma troca de palavra, os esquecimentos, uma mudança de tom de voz, tudo será escutado como produtos não do acaso, mas da interação com questões e conflitos que buscam se expressar a despeito de todo controle que se possa tentar ter por parte da consciência. E o divã favorece esses acontecimentos", afirma o psicanalista Fernandes.

Nesse sentido, diz Laéria Fontenele, não há relação entre o uso do divã e a seleção de conteúdos a serem tratados como difíceis ou delicados, por exemplo. "Não se trata de ajuizar o valor do que é falado pelo paciente no divã".

O paciente pode não se sentir bem no divã?

Se para algumas pessoas a técnica psicanalítica com o divã funciona, para outras, a ideia de falar de si sem trocar olhares com o analista pode causar desconforto e atrapalhar o fluxo da fala e da análise.

"Nesses casos, o analista tem a função de levá-las a falar sobre esses sentimentos, buscando a expressão de seu sentido e a simbolização e elaboração das razões inconscientes", orienta Fontenele.

Klein, do Núcleo de Estudos em Psicanálise e Clínica da Contemporaneidade, diz que uma análise pode se desenrolar frente a frente —seja por questões concretas, seja pela importância que o olhar pode ganhar em alguns casos. "A clínica é soberana. Portanto, o divã não é a condição de possibilidade da psicanálise e não deve ser imposto ao paciente a despeito de seu desconforto, muito embora seja necessário algum desconforto na experiência analítica".

Fonte:Viva Bem uol


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